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A evidência
Os resultados abaixo foram publicados em revistas científicas com revisão por pares. Cada um está indicado com a fonte, para que possa ser conferido sem depender de nós.
Ortigueira, Paraná
Menor incidência de dengue
Comparada às cidades utilizadas como referência no mesmo período.
De supressão
Redução máxima observada na geração seguinte do mosquito.
Publicado em The Lancet Regional Health – Americas, em 2023, sob o título Prevention of a dengue outbreak via the large-scale deployment of Sterile Insect Technology in a Brazilian city.
Jacarezinho, Paraná
O primeiro estudo de campo do método no Brasil, publicado no Journal of Infectious Diseases em 2021. Demonstrou supressão da população do mosquito em ambiente urbano e a consequente redução da incidência de dengue na área tratada.
Londrina, Paraná
Programa de maior duração, com mais de 60 milhões de machos estéreis soltos ao longo de aproximadamente cinco anos, e 80% de aprovação da comunidade atendida.
A aceitação comunitária é um resultado tão relevante quanto a redução do vetor: um programa que a população rejeita não completa o ciclo necessário para funcionar.
Como o estudo de Ortigueira foi feito
O estudo comparou a incidência de dengue no município atendido com a de cidades tomadas como referência no mesmo período, e acompanhou a população local de Aedes aegypti antes e depois do início das solturas de machos estéreis. O desenho é quase-experimental, de comparação antes-depois com cidades de referência. Não foi um ensaio randomizado por conglomerados, desenho em que os territórios são sorteados para receber ou não a intervenção.
Esse desenho permite apresentar o que foi medido. A medida entomológica é de 98,7% de supressão, valor máximo observado no período para a redução da progênie viável do Aedes aegypti (descendência que chega a eclodir), no monitoramento entomológico do território atendido. A medida epidemiológica é de 97% de menor incidência de dengue, calculada sobre os casos notificados na vigilância de rotina, em relação às cidades de referência no mesmo período. Supressão designa a redução da população do vetor durante a operação. A eliminação do Aedes aegypti no território não está entre os resultados medidos, e a manutenção do efeito depende da continuidade da operação. O desenho permite também descrever a operação que produziu esses números, conduzida em escala de município e com os serviços de rotina em funcionamento.
O desenho não permite atribuir o resultado à intervenção com a precisão que o sorteio de territórios daria. Municípios escolhidos sem sorteio podem diferir do município atendido em fatores que influenciam a transmissão, como condições climáticas do período, sorotipos em circulação, imunidade acumulada na população, infestação inicial pelo vetor, cobertura das ações de rotina de controle e capacidade de notificação e de confirmação dos casos. A estimativa depende, portanto, de as cidades de referência representarem razoavelmente o que teria ocorrido em Ortigueira no mesmo período.
Por que o resultado é relevante
A operação foi feita em condições reais de funcionamento, no território inteiro de um município. A medida entomológica e a medida epidemiológica variaram no mesmo sentido, resultado coerente com o mecanismo esperado do método, ainda que a coerência entre as duas medidas não estabeleça, por si, relação causal. A magnitude observada reduz a chance de que diferenças residuais entre os municípios comparados expliquem sozinhas o resultado, sem excluir essa possibilidade. A incidência de dengue varia de forma acentuada entre municípios e entre anos, conforme o sorotipo em circulação e o ciclo epidêmico.
Os números apresentados aqui se sustentam na revisão por pares e na publicação. O desenho, a análise e os resultados relatados foram avaliados por revisores externos antes de a revista publicar o artigo, e o texto está disponível para consulta direta na fonte indicada nesta página. A revisão por pares avalia o que o artigo relata e não constitui auditoria dos dados primários. Esses números também não são convertidos em projeção de casos evitados ou de economia para o município.
Publicações
As duas referências abaixo são os artigos revisados por pares que sustentam os resultados desta página. O identificador digital (DOI) leva ao artigo na fonte.
Ortigueira, 2023. Poncio LC, dos Anjos FA, de Oliveira DA, da Rosa AO, Silva BP, Rebechi D, Pedrosa JM, Franciscato DAC, de Souza C, Paldi N. Prevention of a dengue outbreak via the large-scale deployment of Sterile Insect Technology in a Brazilian city: a prospective study. The Lancet Regional Health – Americas. 2023;21:100498. doi:10.1016/j.lana.2023.100498 · texto completo, acesso aberto É deste artigo que vêm os dois números desta página: até 98,7% de supressão da progênie viva e 97% de menor incidência de dengue.
Jacarezinho, 2021. de Castro Poncio L, dos Anjos FA, de Oliveira DA, Rebechi D, de Oliveira RN, Chitolina RF, Fermino ML, Bernardes LG, Guimarães D, Lemos PA, Silva MNE, Silvestre RGM, Bernardes ES, Paldi N. Novel Sterile Insect Technology Program Results in Suppression of a Field Mosquito Population and Subsequently to Reduced Incidence of Dengue. The Journal of Infectious Diseases. 2021;224(6):1005-1014. doi:10.1093/infdis/jiab049 Primeiro estudo de campo do método no Brasil. Os resultados deste artigo são próprios: supressão de até 91,4% da progênie viva e incidência de dengue 15,9 e 13,7 vezes menor que na área de referência, conforme o período. Os percentuais de Ortigueira não se aplicam a este estudo.
Os dois artigos foram escritos pela equipe que opera o método, e o financiamento declarado consta em cada um deles. A revisão por pares avaliou o que os artigos relatam. Registramos isso aqui para que quem for conferir a fonte já saiba o que vai encontrar.
O que ainda não afirmamos
Há observações de campo promissoras que ainda não foram publicadas, e por isso não as apresentamos como resultado. Quando forem, estarão aqui com a devida referência.
Também não projetamos casos evitados nem economia para o município. Projeção é estimativa. Apresentá-la como resultado medido compromete a credibilidade de um programa de saúde pública.
Glossário
Os termos abaixo aparecem em propostas técnicas, pareceres de vigilância e reportagens sobre controle vetorial. Estão definidos aqui em linguagem corrente, para leitura de quem não trabalha com entomologia ou epidemiologia.
A doença e o vetor
Vetor. Organismo que transmite um agente infeccioso de um hospedeiro para outro. No caso da dengue, da chikungunya e da zika, o principal vetor no Brasil é a fêmea do Aedes aegypti, que se infecta ao picar uma pessoa em fase de viremia, com ou sem sintomas, e, depois de um intervalo de incubação no próprio mosquito, transmite o vírus nas picadas seguintes. O Aedes albopictus também tem competência para esses vírus e é acompanhado pela vigilância, com participação secundária na transmissão urbana no país.
Arbovirose. Doença causada por vírus transmitido por artrópodes hematófagos, sobretudo mosquitos e carrapatos. O nome vem da expressão inglesa arthropod-borne virus. Dengue, chikungunya, zika e febre amarela são arboviroses.
Competência vetorial. Aptidão biológica de um mosquito para se infectar com determinado vírus, permitir que ele se multiplique e se dissemine em seu organismo e transmiti-lo em uma picada posterior. É determinada experimentalmente, em laboratório, e varia entre espécies, entre populações de uma mesma espécie e conforme a linhagem viral.
Capacidade vetorial. Medida de quanto uma população de mosquitos consegue transmitir uma doença em um território, por unidade de tempo. Combina a competência vetorial com a densidade de mosquitos por habitante, a frequência das picadas, a preferência por sangue humano e a sobrevivência da fêmea adulta por período superior ao da incubação extrínseca. Mantidas as demais condições, a redução do número de fêmeas reduz a capacidade vetorial.
Período de incubação extrínseco. Intervalo entre a picada em que a fêmea se infecta e o momento em que ela se torna capaz de transmitir o vírus. Para o vírus da dengue, situa-se em geral entre oito e doze dias, encurtando sob temperaturas mais altas e alongando-se sob temperaturas mais baixas. A fêmea que morre antes de completar esse intervalo não chega a transmitir. A fêmea que completa o intervalo permanece infectante pelo resto da vida.
A técnica
Técnica do Inseto Estéril (TIE). Método de controle populacional que consiste em criar machos da própria espécie-alvo, esterilizá-los e soltá-los em campo em número suficiente para que disputem os acasalamentos com os machos selvagens. A fêmea do Aedes aegypti acasala, em regra, uma única vez ao longo da vida. A fêmea que acasala com macho estéril põe ovos que não eclodem, e a população da geração seguinte diminui. A técnica é empregada há décadas no controle de pragas agrícolas e pecuárias e vem sendo aplicada ao Aedes aegypti em programas de controle de arboviroses.
Macho estéril. Mosquito macho criado em biofábrica e submetido a um processo que o impede de gerar descendentes viáveis. O macho do Aedes aegypti não pica e não transmite doença, porque não realiza hematofagia. Sua alimentação é de açúcares de origem vegetal, como o néctar.
Biofábrica. Instalação onde os mosquitos são criados, submetidos à separação por sexo com controle de qualidade do lote e ao processo de esterilização, e preparados para o campo. No programa, a biofábrica fica no próprio território atendido e a colônia tem origem local. A criação e o preparo ocorrem integralmente dentro da instalação; ao campo vão apenas os machos prontos para a soltura.
Organismo geneticamente modificado (OGM). Organismo cujo material genético foi alterado por engenharia genética, com inserção, remoção ou edição de genes. O programa não trabalha com OGM. O mosquito solto em campo é de origem local, criado em biofábrica e esterilizado, e não passa por nenhuma dessas alterações. O material genético é o da população local do Aedes aegypti.
Supressão populacional. Redução da população de mosquitos em área delimitada, aferida por indicadores de campo, como a viabilidade dos ovos coletados e a densidade de formas adultas, em comparação com o patamar anterior à intervenção e com áreas de referência. Em Ortigueira, no Paraná, a supressão da progênie viva do Aedes aegypti chegou a 98,7% (The Lancet Regional Health – Americas, 2023).
Eliminação. Interrupção da transmissão, ou da presença do vetor, em um território definido, sustentada ao longo do tempo. Quando permanente e em escala mundial, o termo empregado é erradicação. O programa trabalha com supressão populacional. A eliminação não está entre os resultados previstos, porque o Aedes aegypti se reintroduz a partir de áreas vizinhas e de criadouros não alcançados, cujos ovos resistem à dessecação por meses em quiescência e eclodem quando voltam a ser molhados, e pelo transporte passivo de ovos e formas imaturas junto a pessoas e mercadorias. A manutenção do patamar reduzido depende da continuidade da operação e da vigilância que já existe no município.
A medição
Ovitrampa (armadilha de oviposição). Recipiente instalado em ponto definido por critério técnico, que oferece à fêmea um local para a postura e retém os ovos para contagem. A leitura em cadência fixa mostra onde há postura, em que quantidade e como isso se altera ao longo do tempo, por meio dos índices de positividade das armadilhas e de densidade de ovos. Esses índices expressam a atividade de oviposição, medida que não equivale à contagem direta da população. A identificação da espécie é feita em laboratório, porque os ovos das espécies de Aedes não se distinguem com segurança na inspeção de campo.
Série de medição. Sequência de leituras da mesma rede de armadilhas, nos mesmos pontos e na mesma cadência, ao longo de meses. Uma leitura isolada informa a situação de um momento; a série mostra a tendência e permite dizer se a infestação está subindo, estável ou caindo, desde que a leitura considere a sazonalidade, que por si só altera os índices ao longo do ano.
Área de referência. Área comparável à área tratada em infestação, ocupação e perfil urbano, que não recebe a intervenção e é acompanhada pela mesma rede de medição no mesmo período. A comparação entre as duas distingue a variação atribuível à intervenção daquela que teria ocorrido de qualquer modo, por sazonalidade, clima ou outras ações em curso. Como as áreas não são alocadas por sorteio, a comparação apoia a atribuição do efeito sem constituir prova de desenho experimental. Em Ortigueira, no Paraná, a incidência de dengue no período avaliado foi 97% menor que a das cidades acompanhadas como referência (The Lancet Regional Health – Americas, 2023).
